Verdades


De que me adianta falar toda a verdade se o alcance de meus atos e sentimentos pode ser mínimo. A verdade, unicamente pela verdade, me parece mais um dogma do que uma realidade social, do que um valor humano. Não estou defendendo a mentira, mas defendo o alcance humanitário e sensível da verdade. É lógico que a verdade em si é importante, deve ser buscada, deve ser objetivo natural, seja ela uma verdade científica, matemática, histórica ou pessoal, mas fazer uso dela em todo e qualquer momento me parece mais um radicalismo do que um valor. A verdade em si é algo que independe do que eu pense, diga ou sinta, ela é aética e fria, ela simplesmente é, mas fazer uso dela sem comedimento humano me parece em alguns casos algo de extrema desumanidade. A verdade por si só, para mim, não é um valor, o amor pela verdade seria um valor, mas a verdade é um “fato”, agora saber fazer bom uso do que falar, do como falar, e do porquê falar, faz a diferença humana e social, e assume então um corpo de valor humano, assim sendo amar a verdade é para mim um valor, e a verdade em si é uma busca, mas fazer uso de verdades desnecessárias, de verdades que possam ser desnecessárias e que maltratem alguém deve ser no mínimo repensada. Toda verdade deve ser desnuda, é verdade, mas devemos encontrar o momento certo e a forma certa de apresentar certas verdades, e talvez algumas possam ser evitadas para sempre, em especial aquelas cobertas de algum insensível desejo de ser fiel defensor da verdade, custe o custar. 

Sinceramente acredito que não existiriam relacionamentos pessoais sem o que costumo definir como mentirinhas brancas. Às vezes é melhor se calar do que falar uma verdade que possa destruir almas e arrebentar com vidas, ou levar a morte inocentes.

Não faço da verdade absoluta uma profissão de fé, é claro que busco a verdade em tudo e o tempo todo, mas nem toda a verdade que descubro será digna de ser revelada sem algum preparo social. Busco fazer de mim um ser capaz de fazer alguma transformação social, e ser mensageiro de verdades é vital para esta transformação, mas mesmo assim entendo que algumas verdades, podem ser evitadas.


Imaginemos um filho que perdeu seus pais que o criaram com muito amor. Eu descubro que aquele que ele amava como pai não era realmente seu pai, e que aquela que ele amava profundamente como mãe traía abertamente o seu “pai”, sem que este soubesse. Hoje aquele rapaz já sofre a perda de seus pais, por que deveria eu, em nome de uma “pseudo” perfeição pessoal, estragar a imagem dos pais daquele rapaz. Como que um ser cheio de erros como eu, poderia em nome de um dogma de verdade me atrever a ser tão desumano com o rapaz, apenas em nome de uma verdade que socialmente nada somará, nem para o rapaz nem para a sociedade. Eu costumo me utilizar de uma situação muito explorada em filmes, mas que em si mostra o alcance do que eu tento defender. Nos imaginemos na Alemanha da segunda guerra, e eu escondo em minha casa, a sete chaves uma família judia. Bate-me a porta, várias vezes, representantes nazistas perguntando-me se conheço algum judeu, se dou guarda a algum judeu em minha casa, é claro que a resposta será não (uma mentira, mas recoberta de humanidade). Suponha ainda que minha casa tenha uma espécie de poço escondido onde a família judia corre sempre que batem à porta. A “milícia” nazista entra revista minha casa, nada encontra, e de novo pergunta, você não possui nenhum judeu escondido em sua casa, e de novo, pela segunda vez mentiria, “não, eu não conheço nenhum judeu”, e repetiria esta mentira quantas vezes fossem necessárias, e não teria vergonha nenhuma desta mentira.

Não sendo dono da verdade, entendo que a verdade é muito importante, entendo que sua busca deve ser contínua, mas entendo também que muitos tenderão a concordar comigo, que a verdade não seja ela mensageira da dor, por verdades que nada somem de humano. A verdade é sem dúvida importante, mas ela não é algo que definiria como sagrado, algo que esteja acima da vida humana, a vida é mais sagrada para mim do que o enorme valor que dou a verdade.



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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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