Impostura científica

Pessoas bem-intencionadas, até mesmo aquelas que investem parte do seu tempo estudando, acabam sendo atraídas para as pseudociências ou as paraciências, por alguma beleza mística, pela curiosidade, ou pelo mistério que carregam, ou mesmo pela falsa ideia de crerem que estas paraciências são algo como o futuro da ciência, estando assim para além da ciência hoje, como verdades ainda turvas ou escondidas por detrás de um véu que ainda não conseguimos remover. Eles pensam que aquilo que hoje é pseudociência será, com certeza amanhã, considerado verdadeira ciência, como se a ciência pudesse ser produzida, sem perceberem que Ciência está ligada ao verdadeiro conhecimento, ao saber, ao descobrir, e que a ciência nada cria ela apenas busca ler e interpretar a verdade, mesmo que incompleta, daquilo que vivemos, experimentamos e somos, daquilo que já aqui está e existe, a verdade imanente da natureza em toda seu esplendor.

Estas pessoas, algumas delas estudantes sérios, são também induzidas pela inescrupulosa avalanche de filmes e livros que se não levianamente, mas com certeza intencionalmente, misturam o imaginário da ciência com ficção, magia e misticismo.

Nenhum pensador, por mais sério que o seja, ou mesmo por mais amante da verdadeira ciência está livre da tentação de se perder nas pseudociências. Uma vez que todos nós, inclusive os cientistas somos seres humanos e o sendo somos imperfeitos, acabamos, alguns de nós cedendo a tentação da vaidade e dos interesses pessoais e algumas vezes, se não muitas vezes, nos colocamos de forma intransigente na defesa do que cientificamente defende nossas crenças e interesses pessoais, e acabamos assim não praticando a pura e verdadeira ciência. Desta forma todos conhecemos fraudes científicas, má conduta de pesquisadores e divulgação de falsas descobertas, principalmente pela pressão de retorno por investimentos feitos, pela necessidade fraca de vaidade pessoal, ou hoje em dia, muito ligado também a necessidade da mídia de vender novidades científicas.

Acabamos, muitos de nós dando muito valor ao que se passa por científico, quando muitas vezes nada mais são do que falácias pseudocientíficas. Os cientistas não são mentalmente melhores preparados que o resto de nós para não cederem a tentação de confundir seus desejos pela verdade e nem suas crenças pela realidade. Uma ciência verdadeira, é difícil e requer muito investimento de foco, tempo e recursos, e muitas vezes falsos ou despreparados cientistas, tentam ajustar a verdade científica aos “seus” desejos, interesses e crenças, isto gera uma má ciência que acabará por ser desmascarada, porem leva a leigos uma imagem irreal de que a ciência patina e não sai do lugar.


A ciência possui um filtro natural, tudo deve ser modelado, provado e repetível por terceiros. A boa ciência deve prover evidências que podem ser testadas, e assim a má ciência é naturalmente refutada. É uma pena que a mídia não de valor as refutações, posto que o que a ela interessa são manchetes que vendam. Alguns tentam comparar a ciência a um novo tipo de ditadura religiosa, com seus credos e em alguns casos dogmas próprios, eu somente respondo que o risco transitório do engano é sobrepujado pela beleza e pelo filtro natural da ciência, ela se refuta constantemente limpando assim os falsos credos e os dogmas incabíveis. Eu pergunto que religião dogmática permite aos seus membros submeter suas crenças e seus dogmas a luz do escrutínio científico, e seriam capazes de sem temor abrir mão de todos e de cada um dos seus dogmas e crenças que se mostrassem inviáveis a luz da ciência? Eu creio que nenhuma. Eles sempre dirão que é uma questão de fé e não necessariamente de verdade científica.

Tenho razoável certeza que o valor da ciência é seu filtro constante e a sua eterna busca sincera de verdades, parciais que sejam, incompletas, ou mesmo fragmentárias, mas que se somam ou que se refutam, isto é para mim a beleza da ciência. Provavelmente alguns cientistas traiam esta busca, traiam o ideal de objetividade, de realidade e de imparcialidade em suas condutas, mas isto não significa que toda a ciência peca deste mal, e o grande filtro da ciência fará aparecer os erros conscientes ou inconsciente de pesquisas errôneas.

Gostaria de terminar falando primeiro sobre a falácia da mente aberta a tudo que os cientistas sérios deveriam ter, comentando uma frase que não é minha, pertence ao senhor Gérard Majax: “Eu quero ter o espírito e a mente aberta, mas não a ponto de ter um buraco na minha cabeça”. Sim devemos ter a mente aberta, prestando atenção a todos os detalhes e possíveis evidências, mas não podemos em hipótese nenhuma abrir mão da realidade em troca de pseudociência. Com a certeza de que não é interesse meu magoar ou ferir sensibilidades de ninguém terminarei com uma frase de Miss Marple, uma integrante dos romances de Agatha Christie: “As pessoas não são nem boas nem más, elas são simplesmente astutas”.


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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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