Livre arbítrio?

Gostaria de iniciar dizendo que “socialmente”(incluindo-se aqui a vida animal) não sou um determinista ferrenho, mas entendo claramente que muito de determinismo ocorre. Somos induzidos, dirigidos, convencidos, sofremos de ancoragem e muitos outros eventos que por si só contrariariam um perfeito livre arbítrio. Agora, apenas para dar início a controvérsia, gostaria de me posicionar como contrário a posição disseminada pela maioria de que temos pleno livre arbítrio, apenas para colocar mais pimenta no assunto, sinceramente creio que não temos livre arbítrio, pelo menos aquele livre arbítrio aceito pela maioria absoluta dos que o defendem, a saber, aquela capacidade de conscientemente, no domínio pleno de nossa capacidade pessoal, do EU que aparece como existindo mentalmente, de tomar decisões, neste ambiente mental consciente. Tenho de me justificar, comentando que entendo, e sinto, que a consciência é algo a posterior, que é apenas o reflexo de um processamento inconsciente, que é levado a posterior como consciência daquilo que já aconteceu mentalmente, assim entendo a consciência como algo que nos parece como momento presente, mas sendo na verdade uma imagem, uma notícia, uma reverberação de algo que já aconteceu mentalmente no passado, no mundo do inconsciente, e assim sem a presença daquele EU consciente, aos moldes dos que defendem os a favor de um livre arbítrio pleno. Se o EU consciente nada mais é do que algo a posterior, referente a algo subconscientemente deliberado, pensado, decidido e projetado para ser percebido como um EU no comando, não é uma verdade, então, este livre arbítrio como capacidade do EU consciente de agir, deliberar e pensar, só podendo ser uma falácia muito bem engendrada por nossa mente para que pareçamos no controle.

Visto desta forma, tenho agora que defender o porquê não sou um determinista ferrenho no mundo humano, social, animal, do pensar e do existir. Como comentado anteriormente entendo que todo o processamento, ou pelo menos uma enorme parcela dele ocorre em segredo de estado para nosso EU, ocorre no silencio tumultuado de nosso(s) ser(es) mentais em pleno subsolo do inconsciente mental, mas este processamento ocorre, delibera e decide, sempre impregnado com conceitos que carregamos e fortemente influenciado pelos feedbacks constantes que recebemos de nossos sensores, de nossas emoções e sentimentos, de nossas “verdades”, e da própria ação de processar e pensar, além de situações bioquímicas ou eletromagnéticas de momento. Excessos ou falta de alguns componentes químicos, de possíveis bactérias, vírus ou mesmo inflamações, de interferências por campos magnéticos fortes, e outros eventos exteriores afetam o processamento de nosso circuito cerebral, no âmbito mesmo de nosso subconsciente. O que importa agora é que, aqui neste complexo ambiente neural-mental do subconsciente, “tomamos” decisões, cuidado aqui com o tomamos como não sendo tomadas pelo EU consciente, pelo EU que teria o domínio pessoal e consciente da situação. Estas deliberações mentais ocorrem antes e independente do EU pessoal tomar ciência ou mesmo aparecer como dono da situação ou da decisão. Este processamento subconsciente é contínuo, e é sempre afetado, como disse acima de muitas maneiras, e não menos pelos contínuos feedbacks que o cérebro recebe. Apenas como exemplo, superficial eu sei, mas que pode ajudar a entender o como interpreto o conceito do livre arbítrio, podemos supor que por alguma razão sou colocado frente a decisão de escolher seguir pela trilha A ou pela trilha B, é bastante aceitável que sintamos a sensação de que a decisão é nossa, que o EU consciente, o EU que eu sou, está de posse da situação, e com as rédeas na mão para decidir, mas como eu já comentei, este processamento está a ocorrer no complexo processamento inconsciente, e sendo afetado por inúmeros feedbacks, inclusive pelo próprio pensar inconsciente, mas sem que eu perceba conscientemente, um dos muitos feedbacks pode ser o de que estou com fome, ou necessitando de calorias, e meus olhos avistam na trilha B uma goiabeira carregada de goiabas, eu pessoalmente adoro goiabas e seus produtos derivados, e este feedback, que para o inconsciente é presente como momento presente, onde o consciente ainda não foi notificado do fato, passa a deliberar sob mais este ponto de vista mental, e pode a princípio levar a escolha inconsciente da opção pela trilha B, e depois, somente a posterior, levar ao consciente a informação de que é melhor escolher a trilha B por várias razões, e talvez sendo uma delas a da existência de uma fruta que você adora, a goiaba.


Desta forma, entendo que seria de bom tom arrumarmos um novo termo para esta deliberação, que não seja o termo puro “livre arbítrio”, pois que a decisão realmente existiu, mas longe do domínio consciente, assim não podendo ser definida como um livre arbítrio tradicional, talvez quem sabe roubando uma ideia de nominação muito usada no ambiente quântico para diferenciar do ambiente macroscópico, onde acrescentamos o termo quântico a palavra que desejamos utilizar como referência, como salto quântico, vazio quântico, gravidade quântica, vácuo quântico, poderíamos neste caso utilizar o termo “livre arbítrio inconsciente”. Assim, para o consciente, algo já foi deliberado, e na verdade em uma análise muito fria, se parecerá muito com determinismo, mas em verdade, não é um determinismo absoluto, pois que no ambiente pré-consciente ocorreu todo um processamento que em parte é determinístico, mas em parte poderia ser entendido como no mínimo afetado pelos feedbacks, e que assim decide, baseado em inúmeras facetas de momento. Desta forma, prefiro não crer que somos, nem nós e nem os animais, deixe-se claro, autômatos puros, robôs que reagem friamente ao determinismo, existindo, para mim, clara margem para um processamento inconsciente de deliberação, caso a caso, abrindo assim a possibilidade de um livre arbítrio pré-consciente, inconsciente no caso.


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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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