A raiva reside apenas no peito dos tolos

“A raiva reside apenas no peito dos tolos. Alberto Einstein.”

É claro que um ser humano com um mínimo de cultura humana e de inteligência não afirma e nem afirmaria que a raiva não exista. De fato, ela existe, ela é natural, e ela foi selecionada naturalmente porque em algum modo nos possibilitou passar pelos milhões de anos de nossa jornada evolutiva, muitos deles, talvez a maioria absoluta deles, de tempos difíceis para nossa sobrevivência. É certo então que o, para mim, grande Einstein não negava a raiva, e assim que aquela frase não pode em hipótese alguma ser interpretada como uma negativa às emoções e aos sentimentos que brotam e dão vida a raiva. A palavra chave nesta assertiva é “reside”. O humanista Einstein procura lembrar a todos nós que ter ou deixar que a raiva faça morada em nosso “peito” (mente) não é uma atitude de pessoas inteligentes, de pessoas que buscam seu crescimento humano, sendo assim, a sua provocação final associando este estado de contínua raiva aos tolos. 

A raiva é um fato, todos já a sentimos em algum momento, ou a sentiremos. O que importa não é o senti-la organicamente ou percebe-la intelectualmente em nós, o que importa é compreender se estamos em um estado contínuo de raiva, o que não pode ser entendido como normal, ou se a causa, a origem do fato que nos levou a um estado de raiva, que tem de ser passageira e temporária, faz jus ao que sentimos. Tem uma colocação de Aristóteles, com quem tenho algumas discordâncias, mas neste contexto concordo plenamente com ele, que ele falava: “Todo mundo pode ficar bravo, isso é fácil. Mas ficar bravo com a pessoa certa, no nível certo, no momento certo, pelo motivo certo e do jeito certo, isso não está dentro do poder de todos e não é fácil. Aristoteles.”. O que importa é termos algum nível do entendimento da raiva que sentimos.

Desta forma gostaria de comentar a diferença básica entre emoção e sentimento, pois que como em muitas outras situações, é fato comum a raiva. Emoção é algo orgânico, é algo que acontece ao corpo, é uma reação fisiológica, de reflexo inconsciente, não obstante após sua ação, podermos conscientemente perceber alguns reflexos diretos do que inconscientemente, emocionalmente, se ateve conosco. A emoção, no caso da raiva, pode ajudar a nos preparar para algo pior, como até mesmo a lutar ou fugir. Sem que tenhamos consciência, intenção ou domínio, nosso corpo, comandado pelo cérebro e por toda a biologia imanente ao nosso corpo, toma uma ou várias ações que são naturais a emoção da raiva. Podemos elevar e empostar mais a voz, podemos ter elevação dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, podemos tomar uma posição mais firme dos lábios, podemos mostrar parte dos dentes, podemos ranger os dentes, nossa pele, em especial a do rosto pode tomar uma coloração mais avermelhada, podemos contrair nossos músculos, fechar os punhos, olhar de forma mais incisiva e focada ao alvo da raiva, entre muitos outros efeitos biológicos, naturais, e não intencionais, da emoção da raiva. Então emoção é um estado mais ou menos complexo de reações orgânicas que se apoderam naturalmente de nós. Já o sentimento, é algo com maior participação da consciência (pelo menos até onde a consciência possa atuar), não que totalmente controlado por ela, mas onde pelo menos parte dela é tornada pública para nós mesmos pela conscientização do que está acontecendo. Os sentimentos seriam algo como que as emoções que se tornaram conscientes. Os sentimentos são experiências mentais, subjetivas, e por isto pessoais. As emoções são resultado de seleções evolutivas, e é fácil perceber reações semelhantes com variações mais de intensidade do que de qualidade, em outros animais, em especial nos primatas.


A emoção da raiva é algo crú, forte e muitas vezes difícil de conter ou controlar. A raiva funciona, de forma bem livre, como um tipo de medo, ou como um escudo, praticamente servindo como uma reação defensiva e adiantada, nos preparando para algo que pode vir. Ela tanto pode aparecer de forma silenciosa, premeditada (que tende a ser a pior), como pode simplesmente explodir de forma forte e aguda, de modo repentino. Não devemos confundir a raiva com algum estado irritadiço que possamos mentalmente estar passando, mas devemos ter o conhecimento que este estado irritadiço, pode em muito, facilitar a explosão da raiva contra eventos até mesmo de menor valor. Do mesmo modo não devemos confundir a raiva com a revolta, onde esta é em geral um estado consciente que serve de motivação, de injeção de ânimo e de força para se expor pela luta de um ideal maior. As emoções, apesar de no primeiro momento não tomarmos conhecimento delas, pois que são autonomamente controladas por processos biológicos e neurais, tem um forte poder de comunicar ao, ou aos interlocutores, o que se passa com a pessoa. Apesar de ser algo inconsciente a quem a realiza, as emoções têm forte poder de interação social, passando dados aos demais de que estamos emocionalmente ativos, pois que as emoções se comunicam facilmente com outras mentes, muitas vezes, de novo, sem consciência de que isto esteja ocorrendo. A raiva, sendo uma emoção com forte carga emocional, tende a nos dar a capacidade de tomar atitudes, até mesmo aquelas que normalmente não tomaríamos. Gostaria de comentar que as emoções da raiva estão de alguma forma relacionadas aos nossos conceitos morais, diferentemente do que ainda hoje é defendido por alguns, e que no passado era fortemente defendido, e que, pelo menos, nos vem desde a época de Platão, de que a racionalidade e a emoção residiam em “locais” diferenciados. O que a neurociência tem mostrado claramente é que emoção e racionalidade em muitos casos se sobrepõem, colocando uma como participante ativa da outra. Assim a separação entre emoção e razão perde continuamente sua credibilidade.

Raiva é algo natural, não é natural um estado de contínua raiva, que nos destrói e que dificulta nossa capacidade de pensamento crítico e de percepção do real, pois que os filtros da raiva podem nos cegar de forma massiva para fatos importantes da realidade. Não se culpe por algumas vezes sentir raiva, é normal, e é até bom que assim o seja, mas não deixe que este estado de raiva passe a residir em sua mente, sob a pena de até eu lhe chamar de tolo.


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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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