Interpretações da verdade

Entendo que alguns de nós acabamos cometendo pequenos equívocos (alguns nem tão pequenos assim) quando o assunto é a verdade, principalmente no tocante à verdade em si e as interpretações que construímos quando não a conhecemos em sua totalidade, ou porque a percebemos apenas subjetivamente, sempre a posterior, e assim filtradas pelo que somos, pensamos, sentimos ou acreditamos.

Creio que no fundo confundamos saber com crença, e desejo ou vontade de que de alguma forma seja, com o que realmente é, confundimos a verdade mais profunda, com superficiais interpretações ou percepções dela, pois que acabamos nos atendo apenas a superficialidade dos fenômenos perceptivos, e não na profundidade real do que a faz ser verdade, não nas engrenagens que a sustentam, no subsolo da percepção fenomenológica.

Alguns, entre estes vários conhecidos pensadores, subjetivistas, idealistas, e mesmo alguns fenomenologistas, entendem a verdade como uma questão de mera percepção ou de simples interpretação, alguns chegam ao, para mim exagero total, de acreditar que podemos mudar as verdades apenas pela força dos nossos desejos ou do nosso pensar, mas esta não me parece ser uma definição viável, pois não me parece possível e coerente imaginar que a verdade possa ser uma mera questão de ponto de vista, ou que o mundo seja algo tão simples a ponto de eu poder ter o meu mundo, com as minhas verdades, apenas porque assim o deseje.

Sendo eu realista (ou tentando ser), entendo que os fatos verdadeiros em si, sejam eles de ação fenomenológica ou sejam eles de impossível observação (como o que alguém pensou, o que alguém fez, por exemplo, quando não haviam testemunhas), continuam sendo reais, próprios e únicos. A lua não deixa de estar lá simplesmente porque nenhum ser senciente a não observou, ou uma arvore não deixou de cair em plena floresta cerrada simplesmente porque ninguém estava lá para vê-la cair ou escutar sua queda. Por princípio meu, e de já muitos novos cientistas, até no mundo quântico, microscópico, a decoerencia quântica natural nos parece ser mais coerente do que o sucumbir de todas as possibilidades de sobreposição da equação de ondas, apenas pela observação. Sendo eu um pouco cético, entendo que a percepção da verdade nua e crua, absoluta, a menos daquelas de mais simples e direta comprovação, fica dificultada pela nossa limitação bio-mental, mas em momento algum significando que ela não exista.

Nossos sensores biológicos, ou mesmo nossos equipamentos tecnológicos são limitados e imperfeitos e nossa mente não fica muito longe disto. Nestes casos abre-se um leque de possíveis crenças e interpretações da verdade, mas para os fatos devidamente evidenciáveis, trabalhar em cima de um ceticismo absoluto é por mim impensável.


Entendo por verdade aquilo que muitas vezes pode até parecer algo utópico, mas nem por isso devemos abrir mão de buscá-la. Chegamos cada vez mais próximo dela, quando cada vez mais refutamos as falsas verdades. A verdade é para mim a conformidade com o real, mesmo não possuindo valor intrínseco, a verdade é por si só o próprio real em essência. Não devemos confundir a verdade com a realidade que superficialmente percebemos.
   
Entendo que se não atrelarmos a verdade com algo real tenhamos que mudar o conceito filosófico da verdade.

Vários de nós confundem a verdade, com a interpretação que damos ou que é dada por diferentes pessoas a certas verdades que ainda não foram positivamente evidenciáveis.

Entendo, desta forma, que não exista a “MINHA VERDADE”, a “SUA VERDADE” ou a “VERDADE GENÉRICA”. Existe tão-somente uma única verdade. Existe sim a minha INTERPRETAÇÂO da verdade, e sua INTERPRETAÇÂO da verdade, e existe fria e realmente a verdade única, positiva, real e verdadeira, onde a minha interpretação ou a sua interpretação, ou mesmo ambas, podem estar incorretas ou incompletas. Mesmo que voltemos a incerteza do “mundo” quântico, ela não é aleatória, ela é probabilística (o que é muito diferente), e isto por si só já dá um tom de assertividade, e positividade, pois que se assim não fosse, a eletrônica não existiria, e como exemplo, computadores, TVs e outros não seriam possíveis, pois que nunca saberíamos como dar “sentido de direção e de controle” ao fluxo dos elétrons.

Interpretar uma verdade “evidenciável”, por qualquer outra crença ou conceito que não o evidenciável em si, me parece fanatismo.

Algumas verdades são positiva e realmente evidenciáveis, neste caso não pode existir interpretações sobre ela que a desalinhem da verdade evidenciável. Em existindo tal desvio é falacioso se crer nele como verdade.
“A terra circunda o sol, qualquer outra interpretação diferente é fanatismo.”

Algumas verdades são não evidenciáveis, ou apenas parcialmente evidenciáveis (mas isto não significa que a verdade em si não exista, e nem que em algum lugar do presente que sempre chega, descubramos alguma forma de conseguir evidências que não tínhamos). Nestas “verdades” podem existir diferentes interpretações, e isto dá espaço para nossas crenças. Mas nenhuma crença pode ir de encontro com verdades previamente evidenciáveis, ou de novo estaremos no caminho do fanatismo.

A verdade é sempre única, muitas vezes coberta por turva nuvem que pelos nossos limitados e imperfeitos sensores bioquímicos, e pela nossa limitada e imperfeita mente, ainda não conseguimos compreender.

Não existe forma de provar a verdade da não existência de algo, em escopos muito amplos (consigo provar a não existência de algo em escopos fechados e pequenos, tipo provar que não existe um cachorro com asas no meu quarto, mas não consigo provar que não exista um cachorro com asas no mundo todo, pois que não tenho como varrer todos os espaços do mudo todo, mas posso por algum raciocínio lógico, crítico e racional, até onde a razão me for possível, descartar esta possibilidade). Posso apenas racionalizar e onde o racionalismo encontra o precipício do seu fim, existe como saída a forma crítica e lógica de pensar. Mas de qualquer forma, em muitos casos, ele estará como crença.

Cuidado especial deve ser dado a uma verdade positiva, que pode ter várias formas de ser percebida, mas que por transformações matemáticas, ou lógicas, ou de simples ângulo de visão, levem a mesma verdade. Um exemplo:
O CÍRCULO, que dependente de como o observamos, pode parecer um círculo, ou uma curva disforme, ou mesmo um simples segmento de reta. Ao observarmos de frente ele é um círculo. Ao observarmos com alguma inclinação ele é uma curva fechada disforme. Ao observarmos de perfil ele se parece com uma linha. Mas ele é sempre um círculo, e por transformação ele pode ir de uma percepção a outra. Por isto mesmo, na busca da verdade não podemos ficar apenas com uma nossa superficial percepção do fenômeno, pois que ele não é o todo.

Em uma caixa preta, está escondida a real verdade do que acontece, mas podemos nos dar por satisfeitos quando entendemos sua verdade funcional, que transformações ela acarreta, que saída ela oferece par cada entrada, que efeito produz para cada ação de entrada, mas não podemos esquecer que dentro da caixa preta, ocorrem eventos que são em verdade, verdades, e que justificariam cada efeito de saída da caixa preta.


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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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