Uma breve história, da semelhança à genética, e como a igreja se usou desta visão

Gostaria hoje de falar sobre a reprodução humana, em especial de um ponto de vista histórico, abrangendo o conceito conhecido ao longo do passado, desde mais de 500 anos antes de cristo, como semelhança. A semelhança buscava explicar um pouco do que conhecemos hoje como genética e concepção. Como a semelhança era passada aos descendentes? Como semelhantes geram apenas semelhantes? Porque um " tipo de espécime" gera apenas descendestes do mesmo tipo de espécime, e não um tipo de espécime totalmente diferente? Ao longo deste texto falarei dos conceitos de semelhança defendidos pelos pitagóricos, o defendido por Aristóteles, o defendido dogmaticamente pelos escolásticos e pela igreja, e finalmente pelo conceito atual, que teve início nos estudos de Mendel, corroborado em separado por Darwin, sendo finalmente concretizado pelo conceito atual da genética e do desenvolvimento fetal. 

Buscando imprimir uma sequência histórica, darei início pelo conceito defendido por Pitágoras. Pitágoras é muito conhecido pelo teorema que leva seu nome, mas a bem da verdade, o conceito matemático do teorema de Pitágoras tem início muito antes do próprio Pitágoras, que aprendeu sobre ele com geômetras babilônicos ou indianos. Pitágoras era um misto de filosofo, pensador e místico. Anterior a 500 anos antes de cristo, ele ousou propor uma das primeiras teorias acerca da similaridade entre pais e filhos, amplamente aceita por muitos anos. Devemos ter em mente que Pitágoras tinha um pensamento místico. Para ele, as informações que garantiam a semelhança entre progenitores e descendentes se encontravam no sêmen masculino. Estas informações eram adquiridas, sem nenhuma explicação mais profunda sob que forma, enquanto o esperma ainda em geração, percorria todo o corpo do homem, absorvendo “vapores místicos” de cada uma das partes individuais que percorria, obtendo assim informações e qualidades de todas as partes e órgãos corporais. Quando do ato sexual, o sêmen espargido na mulher, se dirigia ao útero, e assim este sêmen amadurecia e se transformava no feto, e deste no bebê. A mulher tão somente fornecia um local de amadurecimento e guarda, alem dos nutrientes necessários a possibilitar todo o processo. Desta forma Pitágoras repetia na gestação-reprodução uma separação clara de trabalho entre homens e mulheres, como era comum e corriqueiro em qualquer forma de trabalho na época. O pai fornecia a parte nobre, "intelectual", fornecia as informações essenciais e necessárias para a geração do bebê, e a mulher entrava com a nutrição, para que aqueles dados pudessem amadurecer e se transformar em uma criança. Esta teoria era conhecida como Espermismo, pois dava ao esperma masculino o papel preponderante na gestação do feto. Me soa um tanto espantoso que outros pensadores da época aceitassem bem esta teoria, pois que ela carregava, ao meu ver, uma fraqueza de argumentação enorme, qual fosse a de como justificar o amadurecimento, a formação e o nascimento meninas, uma vez que por mais tempo que o sêmen gastasse passando por todos os membros e órgãos do corpo masculino, jamais poderia ele, o esperma, conseguir informações acerca do sexo feminino, e não me refiro somente a genitália externa, mas também a todo o hoje definido como sistema reprodutor feminino, como o próprio útero. Isto é para mim tão claro, que seria por si só a refutação mais fácil para esta tese, o que fez clara e marcantemente Aristóteles quando propôs a sua própria teoria, que como veremos também era falha, pois que nascia focada na função-processo, que era o estilo Aristóteles de ver a natureza. Esta forma funcional de enxergar a natureza, em muitos pontos levou ele sistematicamente a erros em suas análises naturais. 

Retornando ao espermismo de Pitágoras, não me passa nada despercebido como o machismo é algo antigo. A teoria defendida refletia, para mim, este machismo, ao homem, através de seu sêmen, cabia toda a informação, para a mulher cabia a alimentação e o local de guarda. Isto era reforçado pela defesa de que a mulher era apena uma espécie de incubadora que goteja nutrientes para a criança via o cordão umbilical, não cabendo ao útero materno sequer a capacidade de gerar a criança, e sim a quase básica missão de carregar e alimentar a criança, sendo o pai o verdadeiro gerador de todos os seres humanos.  Isto era tão entendido como verdade que foi utilizado como argumento de defesa do que ficou conhecido como a tragédia Eumenides, no julgamento de Orestes, pelo assassinato de sua mãe, pois que uma mãe podia ser vista como uma estranha, pois que não passava de uma incubadora humana supervalorizada erradamente, uma vez que somente o pai garante sua linha de descendência, pois que é o esperma do pai quem transmite e garante toda a descendência, toda a semelhança. O machismo chega ao clímax quando defende que ao homem cabe fornecer toda a natureza humana e a mulher oferece tão somente a criação inicial no útero. Uma criança assim derivava da natureza do pai e da criação da mãe. 


Passado um tempo surge outro pensador, Aristóteles, que desmonta esta teoria. Não que ele fosse defensor crítico das mulheres, em muitos casos até pelo contrário. Aristóteles rejeitou a noção de que a semelhança fosse transmitida unicamente pelo esperma masculino. Em sua defesa, ele apresentou características não herdadas diretamente do pai, características que seriam da mãe, ou mesmo dos avós, e assim derrubava o conceito do vapor místico que o sêmen adquiriria em sua viagem pelo corpo do homem, pois que não tinha como viajar pela mãe e nem pelos corpos dos avos. Aristóteles foi mais longe e enveredou por características não corpóreas diretamente, com o próprio jeito de ser, o que ele chamava de disposição de espírito, que não podiam ser percorridas pelo sêmen e assim não podiam se materializar no esperma, mas que em seus exemplos eram transmitidas a filhos e ou netos, ficando o golpe mortal para a geração de uma filha, pois que o corpo do pai não teria como passar estas informações para a geração da filha. Ele ainda advertia que pais que perderam, por exemplo, em lutas ou acidentes, os dois braços, mesmo assim geravam filhos com braços.

Aristóteles ousou bastante para a época, e, dizia ele, talvez homens e mulheres contribuíssem com material para o feto. Foi um grande salto. Como se a mulher entrasse também com algo como um sêmen feminino, e o descendente fosse concebido graças a contribuições vindas dos dois. Desta forma ele contrapôs a posição pitagórica, a de que os pais forneceriam um código (instruções e informações) geral. O que passava do homem para a mulher não era apenas matéria, mas mensagem, o sêmen masculino continha instruções para produzir uma criança, qualquer criança, sempre, sem precisar do vapor místico. Já o sêmen feminino participaria com a matéria prima para o feto, como se o sêmen feminino fosse a madeira para o carpinteiro, e o sêmen masculino fossem as diretrizes a serem seguidas pelo carpinteiro para a produção de sua obra. Era um grande salto, sutil para alguns, mas o sêmen, se bem que ainda o masculino, já carregava instruções, uma espécie de receita, e não mais as qualidades místicas do sêmen pitagórico. Mas mesmo assim, Aristóteles ainda dava as mulheres um valor menor na geração-gestação da criança. A matéria prima que a mulher dava para a gestação, era sua menstruação que parava durante a gravidez, permitindo assim, que com esta matéria prima, o sangue da menstruação, o sêmen masculino pudesse dirigir o trabalho de “construção” da criança. A divisão Aristotélica era que o homem entrava com a mensagem e a mulher com o material. Desta forma a hereditariedade, a semelhança, era uma ação do homem, através da mensagem, através das instruções, e esta mensagem era sempre completa. Esta mensagem carregava informações codificadas, que era impossível para a época detalhar como era este códex.

Muito se tentou acerca de entender aquele código, mas infelizmente nada foi conseguido, até que de forma quase que natural, este código foi sendo de tal forma simplificado, que o sêmen masculino passou a não mais carregar código algum, mas sim já um micro ser humano inteiro, uma espécie de homúnculo que apenas precisaria de alimentação para crescer e se tornar apto a nascer. E esta visão passou a ser, com algumas variações a visão chave por longos séculos, durante a escolástica e defendida pela igreja como a visão correta da semelhança. Segundo esta visão, a concepção de um bebê era a simples transferência de um minúsculo ser humano do esperma do homem para o útero da mulher, não havendo assim, mais código algum, e sim pura e simples miniaturização, e esta teoria era chamada de pré-formação. Para a igreja e os escolásticos, era simplesmente perfeita, pois que com uma simples redução a um infinito recursivo, pois que argumentavam os religiosos, cada homúnculo (micro humano) precisava trazer em si infinitos outros homúnculos para que se perpetuasse assim a existência humana, pois que cada mine ser humano, precisava amadurecer já com todos os demais mine homens para que ele, ao crescer e chegando a idade reprodutiva, pudesse ter os homúnculos para fertilizar uma mulher. O argumento da redução infinita pode parecer estranho, mas era muito mais palatável e fácil de justificar do que um código que era impossível de ser explicado ou especificado. E o que encantava a igreja e era assim defendido pelos escolásticos? Pode passar despercebido a primeira leitura, mas o conceito de redução infinita, implica em que adão, o primeiro humano segundo a visão da igreja, já tinha todos os homúnculos, infinitos deles, e cada um dos homúnculos com infinitos outros em si, para possibilitar o crescimento da população. E porque isso era bom para a igreja? Simples. Cada ser vivente hoje, ou que já viveu, ou que viverá, já era um homúnculo no esperma de adão, e assim, isso caía como uma luva na definição de que todos nós tínhamos participação no pecado original, não praticando-o necessariamente, mas estando lá, juntamente com adão, por isso é justo que estejamos hoje em pecado, pois que lá estávamos fazendo parte do pecado original. Mais do que isto, justificava a defesa do sexo apenas como reprodutivo, justificava a “pecaminização” da masturbação masculina, e de todo e qualquer sexo não reprodutivo, envolvendo homens, seja com outros homens, sejam práticas sexuais não tradicionais pênis-vagina, pois que estavam sendo jogados fora seres humanos completos, e mais ainda justificava o ato sexual como o momento em que o espírito tomava conta do corpo, pois que no ato sexual, já tinha um corpo completo envolvido, e assim o aborto era também claramente pecaminoso. Para os cristãos medievais, a existência desta cadeia infinita de seres humanos propiciava uma compreensão extraordinariamente poderosa e inédita para o pecado original, fazendo com que a “pecaminosidade” tenha sido nossa desde o início das eras, milhares de anos antes de nascermos.

Cabe agora comentar que no meio desta luta de defesas de interesses, algo de novo acontecia, por um lado Mendel, por outro Darwin e em separado construíram algo que unificado levou a verdadeira transformação, levou ao código, levou ao gene e chegou hoje a genética, e a gestação como a conhecemos. Assim saímos da semelhança para a genética atual.


Que tal ler também:

Doppler e Mendel, e a obediência às leis naturais

http://www.ateuracional.com.br/2016/11/doppler-e-mendel-e-obediencia-as-leis.html

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