Darwin e seu Caderno C, variação, especialização, adaptação e seleção


A alguns dias atrás, fiz breve composição a respeito do que é hoje conhecido como o caderno B de Darwin, no texto publicado em meu blog (www.ateuracional.com.br): Darwin e uma de suas primeiras brilhantes frases: “Cada variedade é constante em sua própria ilha” - http://www.ateuracional.com.br/2016/12/darwin-e-uma-de-suas-primeiras.html. Hoje vou me permitir algumas palavras sobre o seu caderno C. 

Por volta de 1938, Darwin estava imerso em seus estudos, e deu início a escrever o que hoje é conhecido como seu caderno C. Ao longo do tempo, ele tinha amadurecido muito de suas ideias, e desenvolvido outras novas acerca da força propulsora natural que levou a enorme variedade de espécies e subespécies não somente hoje existentes, mas que desapareceram ao longo do tempo. Não fosse engraçado, é no mínimo curioso, que parte marcante desta resposta sempre esteve ao seu alcance, como ao alcance de muitos. Era algo comum, mas a genialidade muitas vezes não está na inovação absoluta, e sim na releitura, com novos olhos e conceitos, de coisas que sempre estiveram ao alcance de muitos, mas que dela não fizeram melhor leitura, e Darwin o fez. Ali, aberto a todos, estava parte importante da resposta, e era simplesmente a “variação”. Era conhecido por muitos a capacidade de descendentes aparecerem com características diferentes de seus genitores. A muito e muito tempo, a vários milênios, os agricultores a conheciam, e dela faziam uso, com cruzamentos escolhidos, entrecruzando vegetais para produzir o que era entendido como varações cada vez “melhores”. Responsáveis pelo gado cruzavam animais selecionados, segundo características desejadas, buscando produzir variantes de animais “melhores”, que eles mesmo selecionavam para de novo, participarem de novos cruzamentos. Na própria Inglaterra, criadores já haviam chegado a um refinamento tal que lhes haviam permitido desenvolver novas raças, e raças variantes destas. Criadores de cães já faziam o mesmo a muito tempo. A variação de detalhes nos descendentes, fazia com que artificialmente selecionassem aquelas variações que mais lhes interessavam, e reiniciasse o ciclo de cruzamento com aqueles indivíduos selecionados artificialmente, pelo homem, segundo critérios que lhes interessassem, isto valia para cães, gado, vegetais, pombos e por aí se vai.

Em seu caderno B, Darwin já havia corajosa e ousadamente retirado a criação divina central de seu pensar, de forma herege, já havia rabiscado suas primeiras ideias da arvore da vida, do desenvolvimento sucessivo de variações e de espécies. Mas faltava o principal. Faltava o motor propulsor deste processo, ela não tinha mais muitas dúvidas de que algum processo natural, como o que ocorre na geologia e nos idiomas, deveria também estar por detrás da sequência natural do surgimento de espécies e de variações na mesma espécie, e isto não seria a mão de deidade alguma. 

A sacada da “variação” foi algo que lhe deu nova vida, mesmo não sabendo o porquê, ele percebeu que descendentes podem ter características distintas de seus pais, e que algo envolvendo isto seria aquele motor natural que ele buscava. Não era fácil ainda tirar a seleção intencional humana e dizer que na natureza isso ocorreria naturalmente, pois que lhe faltavam ainda detalhes de como estruturar todo o processo. Dizer que um touro de chifre curto e um touro de chifre longo vieram a se desenvolver baseado na seleção e cruzamento intencional humano (o que chamamos seleção artificial) era fácil e todos envolvidos entendiam e aceitavam, algum touro “básico”, por seleção artificial humana, foi sendo selecionado e recruzado até que chegassem aos tipos específicos desejados, e o mesmo raciocínio era válido e aceito para cães, pavões, vegetais, pombos e etc. entretanto, agora, afirmar que um tatu pequeno era descendente natural de um tatu gigante, ou que as 13 variações de tentilhões vieram todas elas naturalmente de algum ancestral comum, era muito diferente. Não havia humanos para a seleção artificial, e assim, todos aceitavam somente a criação divina como explicação, e o gênesis como comprovação. Isto criava em Darwin uma complicação, pois que ele mesmo vinha de linha religiosa, e todos os seus amigos ou conhecidos eram religiosos, e o fez trabalhar em sigilo, com receio de ferir a sensibilidade de algum de seus amigos ou conhecidos. Desta forma Darwin se questionava: Que forças naturais haviam guiado a criação das variações de tentilhões que ele observava de forma endêmica em cada ilha, ou que tenha produzido os tatus pequenos a partir dos gigantes sul americanos. Ele era corajoso, mas tinha consciência de que eram perguntas perigosas e que não receberiam aceitação por parte dos poderes religiosos. Ele rumava cada vez mais para a heresia, e isto lhe podia custar caro. Ele, se fosse outro, poderia a fim de salvaguardar o “conhecimento” eclesiástico obtido por revelações, simplesmente dizer que eram guiadas pela mão de um deus, mas isto não soava bem aos olhos detalhistas e metódicos de Darwin. Esta não era a resposta, e nem podia ser, que ele buscava, e é engraçado que o mote final básico, chegou no segundo semestre de 1838, num livro de um outro clérigo, Thomas Malthus. Certo ou errado, este livro que não era um livro religioso, escrito por alguém que de dia era um típico reverendo, e a noite apenas e tão somente um discreto economista. Malthus estudava populações e seus crescimentos e decrescimentos. O que importa, não é a qualidade em si do livro, o que importa é que em sua leitura, Darwin se deparou com a ideia de Malthus de que a luta por comida, alimentação, movia os crescimentos e decrescimentos das populações. E este detalhe lhe acendeu uma luz para um motivo da seleção natural, algo como, as espécies que tivessem descendentes que sofressem variações, quaisquer, mínimas, mas que estas variações levassem a alguma adaptação, mínima que seja, para variações que se adaptassem, não unicamente a luta pelo alimento, mas a luta pela sobrevivência, adaptado ao ambiente natural que ocupassem, levaria a que estes descendentes, sobrevivessem mais e assim, de forma natural, pudessem ter mais filhos, que seriam de novo selecionados pelas variações e adaptações ao ambiente e assim por diante. Desta forma, no livro de Malthus, Darwin encontrou a luz que faltava, “a luta pela sobrevivência”, não somente pela alimentação em si, mas pelo todo que o cerca em cada ambiente, seja facilitando a alimentação, facilitando suas “virtudes” de enganação dos predadores, ou seja melhorando sua capacidade de evitar virar presa fácil, e em contrapartida, no caso dos predadores, facilitando suas “virtudes” de predadores, facilitando caçar suas presas, ou mesmo garantindo maiores números de descendentes, e a ambos presas e predadores, garantindo maiores capacidades de sobreviver a doenças ou a parasitas. Assim nascia o processo como um todo, que viria a ser melhorado em continuidade, com outros tipos de seleção, como a sexual e etc... O que cabe dizer é que todas elas, todos os tipos de seleções, fossem quais fossem, eram naturais, nada divinas, seleção natural básica, seleção sexual, seleção de grupo, seleção parental, simbioses várias, e outras...


A luta pela sobrevivência era a mão que faltava, a morte era a selecionadora natural mais eficaz. Em uma das páginas de seu caderno C ele escreveu: “que nestas circunstâncias de seleção natural, as variações favoráveis tenderiam a ser mais preservadas, e as desfavoráveis a serem destruídas. O resultado a longo prazo seria a formação de novas espécies.”. Agora ele tinha construído o arcabouço de sua teoria. Quando seres se reproduzem, podem gerar variantes que se diferenciem dos pais. Estas variações acabam por produzir certas especializações, que podem melhor ou pior se adaptarem ao meio em que sobrevivem. As que se adaptam melhor, sobrevivem com certa maior facilidade e tendem a deixar mais descendentes, as que não se adaptam bem, tendem a perecer mais fácil, ou a não deixarem muitos descendentes, assim acumuladamente, as variações, especializações e adaptações são as mãos que guiam a seleção natural, ainda mais quando lembramos que o meio também sofre alterações, mudando assim o rumo do processo, incluindo-se aí doenças, parasitas, vírus, secas, aguaceiros continuados entre muitas outra possíveis variações do meio como um todo. No inverno de 1939, Darwin já tinha mentalmente composto todos os contornos essenciais a sua teoria.
Apenas para reforçar, gostaria de dizer que melhor adaptado, não é sinônimo de mais forte, mais inteligente, mais vigoroso, e sim, simplesmente, melhor adaptado (mais aptos a sobrevivência), podem existir situações e momentos em que a força e o tamanho, sejam bons selecionadores, mas em contrapartida, em outras situações, pode ocorrer o inverso. 



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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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