Porque buscaria alguma justiça social

Este texto foi publicado em 07/10/2011, em um site geral de textos, depois de mais uma discussão. Apenas para histórico e guarda, publico-o agora em meu blog, www.ateuracional.com.br

Mais uma vez hoje, fui brindado com uma colocação que de repetitiva, não mais me incomoda. A colocação em si é tão despida de mínimo critério de sustentação que em si não vale de nada, o que ainda me incomoda é ver pessoas tão mesquinhas, que são capazes de pensar isso.

Em uma conversa informal, apesar de evitar estes assuntos, pelo preconceito que algumas pessoas ainda possuem, não tive outra alternativa a não ser a de me posicionar como ateu e a favor do social, independentemente de qualquer ética ou obrigação divina. Um conhecido, o que é triste para mim, pois que me é deveras difícil responder tudo que gostaria sem acabar criando no mínimo um mal-estar, veio com a repetitiva pérola a que me referi inicialmente. Ela geralmente versa sobre o mesmo assunto, e no geral é assim:
“ ... ateus mentem, buscando apenas parecerem bonzinhos. Porque eles haveriam de buscar alguma justiça social, e não tão somente aproveitar ao máximo os prazeres e bens materiais, já que sendo ateu tudo lhes é permitido (alguns emendam com uma perola mais equivocada ainda, afirmando que como materialistas os ateus amam os bens materiais acima dos valores humanos)? Em geral acabam por dizer algo no sentido de que sendo ateu não haveria limites às suas vontades, simplesmente porque ateus não creem em moral divina, não creem na bíblia, pois que não creem em deus. ”

No início me magoava com este tipo de colocação, hoje apenas me envergonho com a ideia de ser irmão em espécie de pessoas tão pequenas quanto ao valor de importância que dão ao conceito de vida. Este tipo de afirmação é tão fraca quanto irresponsável, e apenas atesta a ignorância e o preconceito impensado. 

Não tem como não ser um tanto quanto direto em minha resposta. O único cuidado maior que tenho é não generalizar e assim tento focar a resposta a quem falou tamanha asneira. Começo em geral dizendo que o maior problema de quem afirma isto é tirar os outros por si próprio. “Se você precisa de um deus para limitar seus atos, eu só posso dizer que pena. Que pena que você seja fraco, mesquinho e falso o bastante para agir de forma social e humana apenas e unicamente por temor, medo, ou interesses, limitando ou fingindo suas ações e pensamentos na busca de favores ou preferências divinas, e isto é um problema seu, não meu. Se você visando conseguir hipotéticos benefícios ou simplesmente na busca falaciosa de colecionar seus bônus para ter direito a alguma vida posterior, tem de agir de forma forçada e não natural, é problema único e exclusivo de você e não pode significar que todos os outros, incluindo-me nesta lista, sejamos também mesquinhos e falsos o suficiente para agirmos movidos por interesses próprios ou por temor.” Como podem confundir materialismo filosófico com valorizar bens materiais, é tão incompetente esta afirmação que sinto pena de quem a faz. Desde quando valores humanos, valores sociais, e valores naturais, são privilégio de religiosos ou de crentes? Desde quando comportamento coagido por temor, por medo, ou por interesses pode realmente ter algum valor natural, humano ou social? 


Tenho certeza que não sou melhor do que a média, mas eu me esforço por me comprometer com o natural, com o humano e com o social, desta forma, sendo ateu com responsabilidade, busco uma justiça social porque, no mínimo, todos são tão humanos quanto eu. Não sou melhor do que ninguém. Todos têm os mesmos direitos que eu, e todos devemos ter nossos deveres, e entre estes o dever de buscar uma sociedade mais justa. Todos merecem suas liberdades, desde que envoltas em responsabilidades, humanas, naturais e sociais.

Não fosse alguma sensibilidade pelos outros, não significasse que a vida que nos move é importante de forma igual para todos, bastaria, no mínimo, pelo menos, porque se uma justiça social for alcançada, teremos todos mais paz, harmonia e felicidade geral, possibilitando assim que no final todos, e eu entre eles, possam ter também uma vida melhor.

Talvez também, porque diferente dos que me questionam, aprendi que o amor não é divino, mas natural, animal, e assim também humano, aprendi a buscar o amor, como compromisso para com os outros, como parte da construção de uma dignidade natural, humana e social. Entendo que devo construir este amor continuamente, não em relação a mim próprio, mas em relação aos demais, em relação a essência da vida, em especial aos excluídos sociais. Por isto busco alguma justiça social como meta de vida, e não por cobrança ou benevolência superior.

Talvez mesmo porque a realidade do viver dá voltas, e o fato de que hoje eu não esteja do lado dos abandonados e excluídos, não significa que amanhã eu lá não possa estar, ou que possa alguém que me seja muito importante, vir a lá estar.

Busco uma justiça social porque a natureza é de todos, e não é justo que alguns se apoderem insensivelmente das riquezas que vem desta mesma natureza, enquanto a outros caibam apenas as sobras, ou mesmo nada sobrem para estes.

Busco minha humanidade porque me entendo um ser social, o ser humano é um ser social. 

Hoje tenho pelo menos mais dois motivos para buscar uma justiça social, meus filhos, a quem devo exemplos e ensinamentos.

O fato de ser ateu não me faz melhor nem pior do que ninguém, o ateísmo não é uma filosofia de vida, nada tem a ver diretamente com estilo de vida, é simplesmente uma não crença na existência de um deus ou de quaisquer deuses.

Via de regra, acabam por mudar de assunto, mas alguns, em geral os mais ignorantes, tentam retrucar com argumentos cada vez mais sem coerência, como: os ateus odeiam deus, ou os ateus não são confiáveis, ou mesmo que está escrito em algum lugar que não temer a deus leva a fraqueza de espírito. Triste, simplesmente triste. Ateus não odeiam deus, simplesmente porque não se pode odiar o que não existe, para um ateu, deus não existe. Um ateu não discorda de deus algum, ou não acredita neste deus, impossível discordar ou não acreditar em alguém que simplesmente não existe. Um ateu não é aquele que não acredita em seu deus, é na verdade aquele que não acredita na existência de deus. Porque um ateu não seria confiável, se ele tem a coragem de aberta e claramente tomar uma posição contrária a maioria absoluta da população, não confiável deveriam ser muitos e muitos tementes a um irreal deus que agem de forma contrária a uma justiça social. E finalmente, desde quando porque algo está escrito, este algo tem força de verdade? Desde quando revelação tem força de verdade? E porque cargas d’água seu livro sagrado é mais verdadeiro que outros livros sagrados, ou mesmo que seu livro sagrado tem algo de dono de verdade alguma.

Busco, porque entendo que são meus atos, comportamentos e a ousadia de minha luta, aquilo que melhor me define como um animal natural humano, ou como um ser social.



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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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