Deuses, criados a nossa imagem, ao nosso desejo, e a nossa vontade de sermos mais do que somos

De forma natural, se prestarmos atenção, desapaixonadamente, nos deuses ao longo do tempo, esbarraremos em dois grandes grupos de deuses, talvez não limitados a apenas estes. Aqueles que representam ações ou eventos naturais para os quais não tínhamos explicações coerentes ou lógicas, devido a nossa natural ignorância sobre o que poderia estar ocorrendo, suas causas, seus porquês, onde muitos destes eventos eram assustadores, ou então, no outro grupo, um leque de deuses que que representam a perfeição, ou a origem de tudo, perfeição aquela que não temos, que sabemos que não somos capazes de alcançar, e desta forma projetamos nestes deuses nossos anseios, amores e sentimentos que consideramos mais dignos, mais puros, mais humanos, e assim os definimos como mais divinos.  Em assim sendo, precipitamos em um deus, para adorá-lo, fora de nós mesmos, tudo aquilo que julgamos que seria a essência mais elevada de nossa humanidade, que não somos capazes de em plenitude existencial realizá-la e vivenciá-la em nós mesmos. Cabe ressaltar que em ambos os grupos o medo é uma componente importante. Em um grupo o pavor por situações geológicas, naturais, climáticas, ou biológicas (entre muitas outras), que eram aterradoras, como fogo, terremotos, trovoadas, relâmpagos, secas, enchentes, vendavais, doenças, deformações e etc.. Neste grupo o medo era mais prático, mais direto, e fortemente ligado a sobrevivência imediata. No outro grupo o medo é bem mais sutil, mais elaborado, menos direto a sobrevivência imediata, mas ao futuro, ao porvir, ao presente que sempre está a vir. Neste grupo o medo era o da perda, o da falta, o da morte, o do fim, o da separação eterna dos que amamos, o medo da punição, e assim por diante. 

O ser humano é imperfeito, incompleto, complexo e mutável, mas gostaria de ser perfeito, gosta de se imaginar acima da natureza, e assim tudo que julga bom, mas que é imperfeito em cada um de nós, transfere, no segundo grupo, para um ser criado a imagem desta perfeição desejada. Desta forma, este deus é a essência da perfeição que sonhamos, é o exemplo dos exemplos, é a qualidade máxima almejada, ele é tudo que sonhamos, que desejávamos ser, que gostamos de pensar que podemos ser, mas que não somos. Facilmente percebe-se a humanidade destes deuses, pois que foi dado a eles a capacidade de nos ouvir, de nos conhecer, de nos acompanhar, pois que precisamos acreditar que não somos mera natureza vivente, sem maiores brilhos ou maiores motivos. Note que tudo que interessa ao ser humano, considerado como superior, interessa aos deuses do segundo grupo, e tudo que vemos ou sentimos como desumano, como prejudicial a nossa jornada superior, não interessa a deus algum, sendo reflexo da antítese, do demônio. Ansiamos por felicidade e deus seria o caminho para ela. Temos medo da morte, da perda de amores, de filhos e de amigos, e damos a este deus uma morada tal, onde não os perdemos por completo, pois que lá estarão todos eles para nos reencontrarmos. Para isto criamos outro mundo, um mundo perfeito, um mundo chamado divino, onde deus é o mestre absoluto deste novo lar. Lá estaremos perfeitos, seja isto o que for, lá estaremos com quem amamos, lá seremos felizes de verdade, uma vez que por aqui, percebemos ser difícil, eu diria mesmo impossível, sermos plenamente felizes. 

Com esta leitura, percebo, um pouco aos moldes de Feuerbach, que não foi deus que se fez carne, e sim a carne humana, a mente humana, que na ânsia da perfeição, da felicidade e da vida eterna se fez deus, se fez divino, desta forma divinizamos o que mais desejamos, nossos sentimentos bons, nossa essência imperfeita em plena perfeição divina, em especial nos deuses do segundo grupo. Deus seria algo como fonte e guarda de tudo o que mais valorizamos como humano, mesmo que em análise mais lógica possam ser criadas situações antagônicas. Deus seria a justiça plena, a felicidade máxima, a bondade maior, mesmo que muitas vezes estas três situações não sejam naturalmente possíveis ao mesmo tempo, que sejam antagônicas entre si, nem tudo que seria bondade máxima, seria justo, como nem tudo que seria justiça máxima, seria plenamente feliz, e assim por diante, mas não nos preocupamos com isto, o que nos importa é que criamos deuses para termos a sensação de que não somos abandonados aqui, que nossa passagem não seria tão breve assim, e que não somos apenas parte natural da natural natureza, seriamos assim algo mais.


Falar em religião, em especial em suas origens, é falar do medo, direto ou indireto, do temor. Neste caso, penso um pouco como Feuerbach, em especial como parte do princípio de Petrônio: “ Primus in orbe deos fecit timor”, isto é, algo como, o medo foi o que primeiro criou deuses no mundo. Aliado ao medo, vem nossa mente e nos faz procurar desesperadamente alguma estória com mínimo de sentido, que dê alguma coerência aos fatos em si, nossa mente é avessa a algo sem contexto, sem causação e sem mínima justificação, mesmo que façamos vistas grossas a lógica real das justificações em si. O ser humano se sente perdido, se sente sem chão, se sente mal, quando se vê obrigado a conceber algo que não tenha uma origem, uma construção, e que não sirva a algum determinado fim. Nos vemos capazes de construir coisas para alguma finalidade, e detestamos sequer pensar em aceitar a ideia de um mundo, de uma vida, de um universo eterno e “incriado”. Temos que perguntar de onde veio tudo, de onde veio a terra, de onde veio a vida? A resposta vem direto, de deus. Deus é uma criação tão poderosa, que a mesma busca racional por causas e razões de tudo e de cada coisa, se faz morta quanto a ele mesmo, o deus que criamos. Nele abrimos mão da razão e encerramos a pergunta, não mais perguntamos, e de onde veio este ou qualquer deus? Quando adoramos a um deus do segundo grupo, adoramos nossa própria egoísta e "esperançosa" essência, e em essência a razão pode parar nele.  



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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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