Amar seria sofrer? Como?

Estava esperando minha esposa enquanto uma música tocava no rádio de alguém. Nem era meu estilo, mas prestava atenção a letra. Não sendo eu o que necessariamente se chama de um apreciador de letras musicadas, mesmo assim passei a prestar alguma atenção, mas em verdade dou muito mais valor a melodia, ao arranjo, a instrumentalização, ao peso e a pegada, do que a letra em si. Se a letra for boa, que bom, se não o for, não é isso que me liga ou que me afasta das músicas, a menos de letras absurdamente idiotas, ofensivas, desumanas... que me dão certo nojo, e assim me impossibilitam de qualquer ligação com ela. Quem cantava era um músico famoso, o que talvez elevou minha curiosidade por perceber a letra do que ele cantava, até porque o arranjo em nada me encantava, e o estilo da música não me era atraente. Para sorte ou azar, ainda bem no início de minha atenção, a letra categoricamente afirmava “amar é sofrer”. Como, me perguntei logo? Como alguém pode afirmar abertamente isso? E como pessoas podem gostar desta letra? Amar é muitas coisas, mas não é sofrer. O sofrimento não é um dos qualias do amor, e nem alguma decorrência direta ou indireta, obrigatória do amar, do verdadeiramente amar, de qualquer amor. O termo amor, a palavra amar, são termos únicos para uma enorme variedade de sentimentos, de emoções, de estados de ser, de sentir e de estar, que vão desde um amor por um filho, ao amor por um parceiro(a)(os)(as), vão desde o amor por uma ideia até o compromisso de uma luta, vão do amor por doentes, miseráveis e excluídos, ao amor por totais estranhos em guerra ou em sofrimento do outro lado do mundo, passam por um amor por si mesmo, até um amor, como dito acima, por estranhos, pelo amor a um trabalho, a um compromisso, a um conceito, pelo amor a um amigo, e até mesmo pelo amor solto, livre e sério, pela natureza, e por cada ser vivo nesta natureza, incidindo ainda por um amor pelo conhecimento e por um amor pelo simples e próprio prazer. O amor assim tem diversas características, diversas qualidades, diversas nuances, diversos tons, envolve diversas emoções e sentimentos, diversos estados de ser, de sentir, de estar e de pensar.

O sentido de que amar seja sofrer, de que seja algo sofrido ou que seja algo banhado em algum sofrimento, que o amor seja algo que não somente é belo, mas que é também alguma coisa que leve a algum padecimento, é uma situação antiga e decorre de natural contaminação com uma filosofia de ser algo antiquada, pelo menos neste tocante, e assim enganosa, mas que atendia, e de alguma forma ainda parece atender, a interesses místicos, sendo assim fruto de alguma impregnação com uma filosofia existencial que vem sendo fermentada e repetida, algumas vezes de forma mais direta e outras de forma mais sutil, desde as origens do cristianismo. Não tenho competência para expandir esta característica para as demais religiões de origem abraamicas, por isto restrinjo-me ao cristianismo e em especial ao catolicismo, pois que existem uma infinidade de variações cristãs pelo mundo, e me é impossível falar sem conhece-las todas.

Da forma como percebo, entendo que existem vários “amores” ancorados no único e geral termo “amor”, e desta forma, várias são suas características, qualidades, sentimentos e emoções, de forma mais leve, vários são os sabores, as cores, os tons e os sons daqueles amores, mas entre todos eles existe uma interface comum, um subconjunto natural de itens que a todos os amores compõe, seja um amor por pessoas, por ideias, por lutas, por compromissos, por animais, pela natureza... e entre eles podemos facilmente identificar um bem querer, o respeito, o compromisso, a doação, um estado emocional de vontade, de certa energia de vida, de certo prazer emocional, entre outros, mas nunca o de sofrimento algum, o do sofrer. Talvez as pessoas tomadas pela pressa do dia a dia, pelas pressões do próprio existir e do viver esta existência, ou mesmo por preconceitos ou por alguma incapacidade temporal que seja, que leve a algum tipo de bloqueio quanto ao que seja realmente pensar e desconstruir sua própria e pessoal visão, induzida ou não, ancorada ou não, catequisada ou não, doutrinada ou não, do que seja realmente amar, acabem por aceitar facilmente algumas colocações como se verdade o fossem.

O amar, o amor, pelo contrário, não sendo posse, não necessitando de retribuição alguma, sendo por excelência algo de mão única, de dentro para fora, de nós para com os outros, para com as ideias, para com os compromissos, nunca deve levar a sofrimento algum, pois que como amor, nada espera em retribuição, nada espera em troca, muito menos em pagamento. É claro, e eu não seria louco em dizer o contrário, que um amor quando retribuído, quando correspondido, quando deixa de ser de mão única e passa a ser de mão dupla, é muito melhor, é muito mais reconfortante, entretanto o amor em si, não disto necessita.


Desta forma, e conforme penso e percebo o amor, amar nunca é sofrer, nunca é sofrido, nunca é sofrimento, ou dele necessita ou dele se alimenta. Sofremos por muitas coisas, umas mais sérias, outras de menor importância, mas tanto sofrem os que amam quanto os que odeiam, sofrem também aqueles alienados que sequer sabem o que seja amar. Sofremos em diversos momentos, com diversos graus de intensidade, por diversos motivos, e com diversas durações temporais, mas nunca, por favor (apesar de não gostar do termo nunca), nunca por causa do amor.

É claro que sendo imperfeitos como todos somos, e por não crer na existência de sábios, então todos temos algum nível de distorção quanto ao que entendemos e compreendemos como amor, e também quanto ao que realmente e naturalmente sentimos e realizamos como amor, mas não podemos confundir o que seja o amor real, com o que, próximo ou distante dele, o realizamos em nosso viver. O fato de alguém beber e dirigir bêbado e atropelar uma pessoa ou um animal, não é culpa da bebida e nem é culpa da direção em si, também não é culpa da vítima humana ou não, e sim do como aquele motorista se relacionou com a direção, de forma bêbada. Mesmo em momentos de enorme felicidade, mesmo em um estado de êxtase de sentimentos e emoções amorosas, podemos ser abalados por sofrimentos diversos e diferenciados. Podemos de uma hora para a outra perder um filho, perder a pessoa amada, ver nossa luta se perder, receber a notícia de que nosso lar desabou ou está em chamas, ser “pego” por uma bala perdida, perder o emprego, ver um amigo acometido de séria doença, ou envolto em algum sofrimento, encontrar uma criança morta pela fome, um animal maltratado, uma criança vítima de um pedófilo, uma mulher estuprada, e por aí vai, mas nada disto é culpa do amor e nem de nosso estado amoroso. Creio que outra falha é que se confunde paixão com amor, e a paixão sendo cega, pode levar ao sofrimento, ou pode levar a pessoas que se submetam de forma sofrida a algo que sem a paixão não se submeteriam. Mesmo em um amor por um companheiro(a), descobrir uma ou várias traições, não me faz sofrer por amor, deve ser realmente triste, sofrido, mas não por culpa do amor, pois que aquele companheiro(a), em verdade, nunca me pertenceu. Ver um filho envolvido em crimes, com o fascismo, maltratando animais, envolvido com estupros, são sofrimentos deveras dolorosos, mas não o são por causa do amor. Volto a dizer que o amor nada espera de volta, nada cobra, nada exige dos outros (exige de si mesmo), não necessita de retorno, restituição ou de retribuição, o amor não é um investimento, é sim uma espécie de doação, ou se assim o fosse, como amaríamos miseráveis, doentes terminais, ideias abstratas, estranhos, povos do outro lado do mundo, e por aí vai...




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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador

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