Falar e calar

Não existe nenhum assunto sobre o qual não se possa falar, todos os assuntos, reais ou imaginários, físicos ou metafísicos, do mundo natural ou do mundo das ideias, são totalmente passiveis a serem falados, discutidos, debatidos ou desconstruídos. Tudo e qualquer coisa, entre eles todos os assuntos, conceitos, fatos, ou ideias, são abertos a críticas, a exames, a análises e a apreciações. Desta forma devemos ter total liberdade para falarmos sobre todo e qualquer assunto. Assim sendo, apesar de ser um nada frente ao pensador e filósofo Wittgenstein, em qualquer de suas duas fases marcantes, venho, no mínimo, dizer que não faz muito sentido, a sua sétima proposição do Tratactus, “daquilo que não se pode falar, deve-se calar” (Tratactus Logico Philosophicus – Ludwig Wittgenstein).

O próprio Wittgenstein em sua proposição 6.5 informa “Se uma questão pode ser colocada, poderá também ser respondida.” Ele provavelmente esteja comentando que o que não se pode falar, seja aquilo sobre o que não se possa colocar questão alguma. Não consigo pensar algo, sobre o qual não se possa colocar questões, mesmo sobre algo que não exista, que por conseguinte não possua atributos ou qualidades para que se lancem questões sobre ele, continua cabendo pelo menos uma questão: “Aquilo existe?”, e a resposta seria “Não”. Talvez então, buscando outra alternativa, ele na assertiva “aquilo que não se pode falar, deve-se calar”, tenha dado ao termo falar uma formalização lógica pesada, dando ao termo falar o sentido de falar com propriedade total, com conhecimento absoluto, com profundo saber, e assim ele entenderia que se não sabemos, devemos nos calar. Aqui eu teria pelo menos duas colocações, com boa certeza, a maioria absoluta das coisas não temos conhecimento completo e absoluto sobre elas, o que nos levaria a não podermos falar sobre quase nada, e em segundo lugar, como descrito mais abaixo, não aceito a argumentação de que somente porque não tenhamos domínio de causa sobre um assunto, devemos nos calar sobre ele. O que entendo que não podemos, e que não devemos, é fazer afirmações sobre este assunto, mas falar sobre ele, de forma honesta, crítica e franca, podemos e devemos, até mesmo para irmos construindo uma estrutura de argumentações que passem em algum momento a nos ajudar seriamente naquele assunto.  

Falar sobre qualquer assunto, serve para ajudar a construir uma visão crítica sobre ele. Serve para em debate ou discussão, ou mesmo em franca troca de ideias e conceitos, aprofundar nossos argumentos, refutar alguns outros, construir novos, e assim por diante. Mesmo o fato de totalmente desconhecer um assunto, não nos impede de sobre ele falar, nos deveria impedir de sobre ele fazer afirmações, o que é bem diferente. 


Apenas nos devemos calar (se é que nos devemos), quando por alguma razão, o que falamos possa levar sofrimento real e não necessário a alguém, neste caso, por algum tempo, até que o assunto perca esta aura de dor, podemos nos calar em nome de diminuir ou evitar tal sofrimento a alguém. Mesmo assim é um fato que mereceria maiores discussões, nos calar, quando temos argumentos que provem ou refutem um assunto ou uma ideia, apenas para diminuir ou evitar uma dor, seria correto? Manter a ignorância, a dúvida, ou a mentira, calando-se, seria mais ou menos humano do que expor seus argumentos de forma carinhosa, educada, respeitadora, mesmo que ao final leve algum sofrimento a quem o ouve? Entretanto no geral, no varejo do dia a dia, não tenho dúvidas de que todo e qualquer assunto, toda e qualquer ideia, todo e qualquer conceito, é aberto a toda e qualquer crítica, aberto a fala, aberto a análise crítica e racional, desde que sempre envolta em educação e respeito humanos. 




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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador

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