Você pode contar com a natureza (texto publicado em 2011)

Você pode contar com a natureza, mas não pode esperar que ela aja intencionalmente a seu favor, a natureza é neutra, mas não perversa, é natural, mas não paternalista, em nenhum sentido. Todos nós e a natureza, ou melhor, a vida como um todo e a natureza, convivem em uma relação que o que tem de bela, possui de instável, não porque a relação em si seja não natural, mas porque a mãe terra é em si dinâmica e ativa, no entanto, em especial, também porque os arrogantes e prepotentes humanos, de cima de toda sua prepotência e vaidade, se acham melhores do que aquela relação, ou se veem criação divina, que tem a terra apenas para seu total usufruto e estadia passageira, e assim abusam, estressam, poluem, desgastam e estragam a relação que já é por si só instável, apenas para satisfazer seus prazeres sujos, desumanos, e gananciosos, de cada vez mais ganharem e enriquecerem. A natureza, e decorrente dela, a vida em toda a sua essência, são perfeitas enquanto são naturais. Elas são naturais enquanto são frutos de um mesmo imanente tecido cósmico/energético/material/natural.

A vida em si é frágil. Nossos corpos físicos e mentais são frágeis. São perfeitos apenas aparentemente, sendo imperfeitos quanto ao resultado que nasce da própria complexidade da vida. Perfeitos não como projetos, mas apenas e tão somente como o possível, dado a longa caminhada, e todos os obstáculos que teve de superar, se adaptar e evoluir. Por mais perfeitos que nos pareçam nossos corpos físicos e mentais, eles são frágeis frente a robustez que gostaríamos que eles tivessem, e mais ainda imperfeitos frente ao que muitos de nós pensamos de nossa espécie.

A natureza agiu ao longo de muitos e muitos milhões de anos construindo, por “tentativas” erráticas (na verdade por erros de cópia genética e adaptações não planejadas), a nossa característica humana, entretanto, esta mesma jornada de aleatoriedade nos erros de cópia e nenhuma aleatoriedade no processo de seleção, natural, sexual, simbiótica, ou mesmo de grupo e artificial (a feita pelas mãos humanas segundo seus interesses), moldou cada espécie viva ou que já viveu ao longo da história da vida em nosso planeta. Além disso, a natureza vem a mais de três bilhões de anos, dando novas formas e soluções para vida primordial. Sem nenhum plano traçado, jamais agindo intencionalmente ou por algum propósito maior, uma vez que a natureza não possui intencionalidade em suas ações, a mãe natureza vem, largada ao acaso das complexas probabilidades dos erros, construindo momento a momento, o crescente repertório da expressão da vida, pelo encantador processo de seleção.

Desde os primórdios, a mais de três bilhões de anos, onde os primeiros compostos orgânicos tiveram suas origens, com os nascentes replicadores, a natureza tem moldado o crescente aumento da complexidade imanente da vida, criando e adaptando bactérias procariontes (sem núcleo), que no crescente evolutivo, agregou constantemente maior complexidade, passando por constante evolução desde meros replicadores, bactérias procariontes, bactérias eucariontes (nucleadas), seres anaeróbicos, aeróbicos, seres multicelulares, animais aquáticos, vertebrados, anfíbios, repteis, mamíferos, símios e finalmente chegando até os hominídeos, e por fim evoluindo até o sapiens, e o homem moderno, o nada prepotente sapiens sapiens. Esta linha evolutiva, dentre múltiplas outras, em especial, acaba para muitos por parecer mais importante, somente porque no seu final estamos nós. Mas a vida em sua prolixidade de apresentações possui outras inúmeras linhas evolutivas, que possuem exatamente o mesmo grau de importância para a vida, não sendo a nossa linha evolutiva nada em especial para a natureza ou para a própria vida, pois que em especial nada possui, sendo apenas galhos de uma frondosa e muito maior arvore da vida.

Nossa humanidade é uma característica adquirida ao acaso, não necessariamente ao acaso da seleção, mas ao acaso das probabilidades de erros de cópia. De quase infinitas diferentes tentativas, a mente humana (o cérebro que a permite emergir) foi tomando a forma que hoje conhecemos, nunca recriada, mas sim sempre aproveitada de seres ao longo de nossa linha genética de origem. Isto não diminui em nada nossa importância, pelo contrário, valoriza em muito nossas características humanas. Elas foram conseguidas ao longo de um período de tempo que mais nos parece uma eternidade, de tão longo que foi, sem planificação especial e por acumulação sucessiva de erros de cópia, adaptações, especializações e seletividade natural ou sexual, ou outras.

Na natureza não existe um plano pré-traçado. Nada na natureza é planejado, ou direcionado a priori. Os fatos vão se sucedendo temporalmente, se desenrolando de forma totalmente natural. Aleatoriamente, as variações que deram certo, que são minoria, e que acabam sendo mais bem ajustadas para sobreviverem e para deixarem o maior número de descendentes, vão se perpetuando. A maioria das alterações genéticas acaba em impossibilidades de vida, ou são neutras em si mesmo. Não deveríamos esquecer isto, pois aumenta, em muito, a nossa responsabilidade como humanos. Não foi fácil para a vida nos fazer aparecer como solução de vida e de espécie.

Um ser vivo mais bem ajustado ou adaptado não significa melhor projetado, planejado, ou melhor construído, devemos ter sempre em mente que não há projeto algum. Significa somente melhor estruturado unicamente para melhor sobreviverem ou melhor se procriarem, mesmo que em alguma análise do ponto de vista de um “pseudo projeto”, este seja mais frágil e de menor qualidade geral. A evolução, e talvez mesmo a biologia como um todo é econômica, e aproveita tudo que pode, praticamente nunca dando início a algo inteiramente novo.

Enfim, de novo, não há projeto, não há plano, mas há vida, há complexidade, há cérebros, há humanos, há mentes, há a nossa humanidade e há o social e o coletivo, mas sempre há e somente há, o natural e a natureza.

Você, eu, ou qualquer um de nós, somos o reflexo desta evolução, que no fundo nunca significou o melhor, e sim o mais bem adaptado, a cada realidade e necessidade de momento histórico, geográfico e geológico. Refletimos hoje uma carga genética, que nos elabora, e nos dá a característica que nos faz únicos.

É, para mim, bastante natural imaginar que todas as exigências naturais pelas quais fomos obrigados a superar ao longo de toda a evolução, desde os primeiros compostos replicantes, tenha nos tornados seres algo simbioticamente ligados as demais vidas e a própria natureza. Desta forma não me parece absurdo supor que a própria natureza possui condições para nos ajudar como seres vivos, para nos ajudar na recomposição de nossa saúde física e mental, mas nunca intencionalmente.

Seus compostos naturais, suas belezas, sua pureza e sua energia natural viva podem trabalhar em conjunto conosco nos equilibrando e nos compensando em nossos desequilíbrios orgânicos, hormonais e mentais. Não seria louco de abrir mão de médicos, medicamentos, vacinas, e de tratamentos profissionais, médicos, psiquiátricos ou psicológicos, sempre que necessário. O que comento é que a mãe natureza, como parte natural de nossa existência ao longo de bilhões de anos pode nos ajudar em nosso equilíbrio.

A natureza como fonte única da vida, é ela também nossa fonte natural de nutrientes, e assim é ela capaz de nos ajudar de forma ativa a recuperar e manter nosso equilíbrio físico e mental.




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Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador.

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