Nós não descendemos de chipanzés, o surgimento de novas espécies

A Evolução no geral, e o natural surgimento de novas espécies no mais específico, são assuntos ainda muito mal compreendidos por muitos, e muitas vezes intencionalmente mal divulgados por vários outros. Realmente me chateia e provoca, como um assunto tão natural, pode ser ainda tão mal-entendido, causando ainda em algumas pessoas certo incomodo, provendo alguma repulsa em tantas outras, apenas por imaginarem que a evolução possa estar certa. Me refiro a uma gama abrangente e democrática de pessoas, que por falha na forma como foram educados cientificamente, se perdem ou se deixam levar por mentiras, equívocos, engôdos, ou simplesmente por desconhecimentos sobre o assunto. A dificuldade no assunto Evolução e no natural surgimento de novas espécies abraça pessoas de boa índole, de boa cultura geral, de boa intenção, pessoas honestas e coerentes, pessoas sem maldade ou interesse maior na defesa ou na manutenção dos erros de interpretação, levando a que alguns duvidem da evolução, e a que acabem se baseando em informações distorcidas, em conceitos equivocados, e em balelas acerca da Evolução. Um destes muitos enganos é ter como referência a falsa informação de que descendemos de chipanzés, ou que evoluímos de algum de nossos primos geneticamente próximos, como chipanzés, bonobos, orangotangos, gorilas e afins. Não, não descendemos de nenhum destes primos biológicos, não que isto pudesse ser algo desonroso, deprimente ou “depreciante”, mas apenas porque não é um fato biológico. Evoluímos de uma espécie ancestral comum. A evolução, no geral, não ocorre aos saltos enormes ou únicos, a evolução é um processo contínuo, desta forma, algo que devemos sempre ter em mente, é que “filhos” descendentes de “pais” de uma determinada espécie, são eles, os filhos, também da mesma espécie dos pais. Desta forma, sapiens deixam como descendentes sapiens, chipanzés deixam como descendentes chipanzés, elefantes deixam como descendentes elefantes. Pais tem filhos da mesma espécie. A “variação” e a especialização são um processo, e não um salto, ou um fato instantâneo, avulso, isolado. Variações em genes, ou o surgimento de um novo gene, que levem a uma nova constituição proteica, pode até ocorrer em saltos ou pode ser ele também um processo contínuo (apesar de que a maioria ainda creia que o surgimento de novos genes seja um processo temporalmente contínuo, existem estudos que podem apontar para o surgimento de novos genes em curto espaço de tempo). O complexo na Evolução, com certeza, não está no seu macro conceito, mas sim na estrutura genética envolvida, que é o motor natural da evolução. Retornando ao assunto da descendência direta ser da mesma espécie de seus ascendentes diretos, costumo falar que sou humano, simplesmente porque sou filho de humanos, e estes foram também filhos de humanos. A evolução não atua desta forma radical e imediata (em especial em espécies multicelulares complexas, sendo mais comum mutações mais imediatas em bactérias e afins), por isso uma nova espécie pode surgir ao longo de um tempo histórico-biológico sem que a espécie matriz seja perdida por este surgimento. 

Apenas por curiosidade, e como simples forma de tentar visualizar um processo contínuo de variação, que a posterior tentarei associar com uma forma demonstrativa simples e reduzida de Evolução, peço que tentemos visualizar:
Pensemos em uma grande piscina, cheia de líquido branco (poderia ser de qualquer cor). Sobre esta piscina, visualize o gotejamento espaçado, periódico, de outro líquido, digamos agora da cor azul. Como a piscina é única, delimitada, o gotejamento ao longo de extenso tempo, se espalha pelo bolsão de agua branca, tingindo-a, variando sucessivamente o teor branco puro inicial daquele bolsão, até que ao final de longuíssimo tempo, aquele bolsão inicialmente branco possa estar agora totalmente azul. É interessante notar que a primeira gota, sozinha, acaba por se perder totalmente diluída no bolsão de agua branca, mas o resultado final deste processo a longo tempo, é transformar a piscina branca em azul, sem que ao longo dele seja perceptível algum salto do branco para o azul, pois o que ocorreu foi um processo lento e contínuo. Ao longo do tempo gerações de pessoas viveram próximo a esta piscina sem perceber mudança alguma, apenas tendo informações de que ela já tinha sido branca, ou mesmo já tinha sido algo mais clara no azul, mas por mais que procurem não encontrarão evidência clara da mudança em saltos, como quando ela passou a ser azul claro, ou agora, de um azul mais forte. É claro que por simplicidade falamos de um único gotejamento, mas poderiam ocorrer vários gotejamentos, em períodos diferenciados, e de cores diversas, mas o conceito geral seria o mesmo, a cor do bolsão seria continuamente alterada, sem algum momento exato de salto do que era para o que agora é. O importante também aqui é lembrar que era um bolsão único, e que por isso a mudança, a variação, ao longo do tempo, atua sobre todo o bolsão. Mas e se por alguma razão, aquele bolsão único, passasse a sofrer alguma segregação e tivéssemos por exemplo dois diferentes bolsões, ou mais até? Por simplicidade em breve tentaremos pensar em apenas dois. Voltando ao bolsão único, e por simplicidade novamente, já vimos que poderiam ocorrer diversos gotejamentos, vamos nos ater agora a apenas dois gotejamentos, em períodos longos e diversos, um sendo da cor azul, e outro sendo da cor amarela. Alguns já perceberam que o processo levaria a longo tempo a que o bolsão inicialmente branco, chegasse ao verde, e de novo sem salto algum, do branco para o verde, ou do branco para o azul, o amarelo, até chegar ao verde. O processo atuou continuamente. Volto a repetir que devido a termos um bolsão único, o processo de “diluição e mistura” acaba por se espalhar continuamente por todo o bolsão. 

Agora resgatemos a ideia de que o bolsão único, por algum evento, seja ele qual for, deixe de ser único e passe a ser de dois bolsões fisica e geograficamente delimitados, bem demarcados e isolados. Vamos apenas para exemplo deste exercício mental, pensar na sequência dos mesmos dois gotejamentos, um azul e outro amarelo, mas agora cada um ocorrendo em um bolsão isoladamente. A maioria com certeza já percebeu claramente que o processo contínuo que ocorreu no exemplo de um único bolsão com uma única cor de gota, é “repetido” (o processo), mas que cada bolsão tendo uma “vida” separada própria, passa a caminhar, um do branco para o azul, e o outro do branco para o amarelo, e ao final de longo tempo, existirão dois bolsões demarcados, de cores diferentes, e que de forma simplista não demonstram necessariamente a mesma origem, e mais ainda com características bem diferenciadas. Devemos ter em mente que o evento de segregação (que acabou por criar dois delimitados bolsões) pode ter ocorrido em qualquer momento ao longo de todo o processo, e o que muda, é apenas alguma tendência a verde que pode ser maior ou menor, no resultado final, dependendo do momento da segregação ter ocorrido logo no início, no meio, ou mais ao final da história de todo o processo. Cabe lembrar também que as velocidades históricas relativas de cada gotejamento, mudam o resultado a cada momento histórico analisado. 

Tudo isto foi um processo físico-químico, eu sei, mas serve com alguma boa vontade e certa abstração, como uma imagem histórica (tipo um filme) para o que vou tentar falar sobre a Evolução. Inicialmente vou gastar algumas palavras a mais, tentando definir relações, não factuais eu sei, apenas na forma de imagens abstraídas, entre o que vimos e o que desejo falar da Evolução, neste caso, mais em referência ao surgimento de novas espécies. 

A piscina, o bolsão líquido se referirá a uma população geograficamente delimitada, onde seus exemplares procriam entre si, de forma mais ativas uns, e de formas menos ativas outros, mas que ao longo do tempo histórico biológico acabam por procriarem entre todos (ou quase todos) levando a uma constante miscigenação. O bolsão de líquido seria o bolsão genético que é mantido por toda uma população geograficamente segregada ou delimitada. Este bolsão genético acaba por refletir a miscigenação natural da espécie e é sua riqueza genética, ajudando assim a manter certa estabilidade natural, e a uma comum dispersão de variações genéticas, incluindo as mutações.

O evento de dividir a piscina, criando dois bolsões em separado, pode ser qualquer um no mundo real, biológico-geográfico, pode ir desde algum cataclismo, um movimento tectônico de separação de áreas geográficas, o surgimento de novas montanhas, o aparecimento repentino de um grande rio separando espaços geográficos, como a simples migração de parte da população natural para uma nova área distante ou separada o bastante para garantir a segregação ao longo tempo, criando assim dois delimitados bolsões genéticos (podendo ser mais de dois). O importante neste exercício é a segregação geográfica, que impossibilita assim a reprodução entre membros dos diferentes bolsões, mantendo toda e qualquer nova mutação restrita aquele bolsão em que ocorreu, fazendo com que cada bolsão passe a ter uma vida isolada um do outro, levando ao acumular de novas e diferentes mutações em ambos os bolsões e a pressões seletivas também diferentes atuando nos dois bolsões. Mutações em cada bolsão, podem levar a adaptações e especializações específicas a cada bolsão, que com pressões seletivas diferenciadas (específicas a cada área geográfica e tempo histórico), cria toda a situação para a diferenciação, ao longo de extenso tempo histórico-biológico, para espécies diferenciadas, podendo ao passar de longo tempo, levar a diferenças genéticas tais que não mais sejam possíveis reproduções entre membros dos dois diferentes bolsões.  

O gotejamento, seriam os erros de cópia, seriam as mutações, que passam a atuar e a afetar diferentemente cada bolsão independentemente. É claro que a Evolução não é tão física assim, e a seleção ocorre de diversas maneiras, natural, sexual, simbioses, entre possíveis outras, e até mesmo mais recentemente no tempo histórico, a pressões seletivas artificiais, onde o homem passa a ser agente de seleção. É claro que o processo genético-biológico envolvido é de ordem de grandeza muito maior que o processo físico-químico ilustrado no exercício das piscinas, até mesmo porque certas mutações, ou erros de cópia podem ser neutros, ou levarem a morte ou a impossibilidade de procriação. Enfim, o processo biológico de especialização em uma nova espécie é deveras mais complexo do que o das piscinas, mas em geral acho que pode ter ajudado a perceber de forma superficial uma sequência natural de surgimento de novas espécies.  

Assim, volto a falar que não descendemos de chipanzés, mas somos primos bem próximos deles. Vamos tentar voltar no tempo, de preferência se nos for possível, de novo, com pensamentos de imagens. Um dia não existiam sapiens nem chimpanzés (neste exemplo, vou usar apenas os dois, mas o mesmo vale para quaisquer duas outras espécies, e vale assim também para nossos primos mais próximos, o bonobo, o gorila ou o orangotango, entre outros), existia uma espécie ancestral aos dois, os erros de cópia, em sua maioria absoluta, pelo menos os que deixam descendentes vivos são erros de cópia mínimos, que apenas ao longo do tempo vão se somando... Desta forma esta espécie, é claro, só pode dar a luz à descendentes de sua mesma espécie, não tem como ela dar a luz diretamente a chimpanzés e/ou sapiens. Naquele momento éramos todos descendentes da mesma espécie, e assim de alguma forma competíamos por sexo reprodutivo, por alimentação e talvez mesmo por área geográfica, desta competição natural, por alguma razão também natural, parte destes descendentes, da mesma espécie original, foram sendo segregados geograficamente, e aqui o termo segregado nada tem de pejorativo ou de fraqueza (de perda de luta, pode até ter sido, mas não é o seu sentido). Graças a esta segregação geográfica, que pode ter sido decorrência até mesmo de algum cataclismo natural, os dois grupos que eram da mesma espécie, e que assim possuíam um mesmo bolsão coletivo genético, pois que se reproduziam entre si e assim mantinham seus genes espalhados por este bolsão, onde um erro de cópia ou se espalhava ou se perdia, passou a dar a vez a dois diferentes bolsões genéticos, quem sabe a três ou quatro... Desta forma erros de cópia que aconteciam em um bolsão ficavam restritos a aquele bolsão, não afetando o outro , e vice e versa, assim podemos facilmente perceber que os erros de cópia, que são a alavanca inicial da evolução, puderam passar a ocorrer e se somar em grupos separados, sem que um afetasse o outro e desta forma, puderam levar a adaptações e especializações em separado, e assim a evoluir em separado, e chegar ao longo de um extenso tempo histórico-biológico, e de sucessivos erros de cópia, adaptações e especializações, passando por diferentes pressões seletivas, pois que em grupos geograficamente segregados, a espécies diferentes.... E aqui estamos nós e os chipanzés...




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