Verdade... Talvez...

Apesar de sinceramente crer a verdade, plena ou mesmo em sua essência, sempre como algo absoluto, não há como fugir de uma certa relatividade subjetiva no como ela acaba podendo ser percebida, mas é importante delimitar que isto não a torna relativa, apenas nossa limitação biológica em a perceber a torna algo relativa no como a percebemos. Algum tempero cético faz-me cada vez mais intuir que conhecer a verdade plena, em escopos ou situações mais profundas, complexas ou abertas, requer muito mais do que simplesmente a buscar com nossos sentidos primários, assim, apesar de crê-la em essência sempre como algo absoluto, no nível que nos é possível percebê-la ou interpretá-la, ela acaba por ser muitas vezes percebida, interpretada, entendida ou apreendida como algo relativa, quer seja no escopo temporal, geográfico, cultural, ou mesmo focada localmente, sendo sua valoração de verdade relativa a capacidade individual de compreendê-la. Isto é um fato, e traz consigo um risco, risco maior do que a simples interpretação diretamente errada dela, mas a capacidade do mal uso, intencional, distorcido e interesseiro desta relatividade para engodo, convencimento, justificação e defesa de interesses ilícitos, sejam eles religiosos ou seculares, místicos ou materiais.

Cada povo, cada cultura, cada grupo, cada corporação ou instituição, cada ser humano em última análise, acredita ter “sua” verdade, independente de alguma busca mais profunda, séria, honesta, racional, crítica, como se a verdade pudesse ter várias faces ou realidades. É claro que não falo de verdades lógicas, matemáticas ou afins, que são precisas, falo de interpretações mentais, subjetivas, indiretas, de realidades ainda não formalmente comprovadas ou rejeitadas, e mesmo estas podendo algumas, ou muitas, vezes serem corroboradas ou refutadas baseado em aproximações.

Minha mãe repetia: Cada cabeça uma sentença. E ela sem saber estava sendo também relativista. Mais do que uma sentença, na verdade ela agregava naturalmente o senso de que cada cabeça tinha uma coleção e verdades.

O problema para uma sociedade não laica, não secular, em sua matriz ideológica, é que o relativismo tende a longo prazo a prover motivos que justifiquem o que se desejar, em especial nas mãos, ou nas palavras de oradores mal-intencionados que abusam da ingenuidade, da preguiça ou da incapacidade de livre pensar, e da ignorância de muitos, fazendo parecer verdades a mera interpretação, muitas vezes totalmente sem justificação ou aderência, material, crítica ou racional, nunca corroboradas por evidências naturais.

No fundo, acredito que todos temos a percepção de que sempre estamos buscando a verdade maior em cada situação. Mas isto no fundo não é verdade. Todos estamos de algum modo sujeitos a preconceitos, a filtros, a ancoragens, alguns estão dominados a dogmatismos múltiplos e doutrinações que sequer percebem. Só nos resta uma saída, ter a ousadia, a vontade e a coragem de criticar abertamente todas nossas posições, nossos conceitos, a todo instante, frente a novas realidades que continuamente nos afetam direta ou indiretamente. Devemos ter a racionalidade (onde aplicável), e pelo menos um estado crítico de ser e pensar, para ter a ousadia de buscar separar o que gostaríamos que fosse, o que parece ser, do que realmente é. Separar o que deveria ser do que realmente é, em especial por sermos seres morais e sociais, não é fácil, mas o que é nada tem a ver com o que deveria ser, com o que poderia ser, ou com o que gostaríamos que fosse. Devemos evitar tomar nossos desejos por verdades.

Sinceramente, excetuando-se como dito as verdades lógicas, acredito que jamais estaremos aptos a conhecer toda a verdade (a menos das coisas mais diretas e simples), visto nossas limitações orgânicas, biológicas e mentais, e mesmo as limitações de nossos artefatos de pesquisa.

Mas e daí! Se não posso conhecer a verdade em sua essência total, posso, e devo, pelo menos construir uma rota em que a busca dela deve ser constante, mas sem me permitir o desespero de me afogar na profundeza de seu desconhecer. A sociedade sofre, não preciso conhecer a verdade em essência total para isto perceber. Pessoas são esquecidas, exploradas, relegadas a objetos, excluídas, e não preciso ter completo domínio sobre toda a verdade para isto perceber, se não o sofro em primeira pessoa, facilmente o percebo nos outros. Tenho forças e capacidade para agir. Então falta-nos apenas decisão ousada de nos lançar na reconstrução de nossa sociedade, politicamente, socialmente ou economicamente falando. Novos homens para um novo mundo. Se a verdade não nos é total, o parcial que podemos perceber deve nos guiar em busca de um mundo de justiça social e de dignidade humana para todos, com o máximo cuidado de alinhar e adequar a parcialidade da verdade que podemos conhecer, com as verdades já conhecidas e com o saber já existente.




#ateu
#ateuracional
#livrepensar
#ateuracionalelivrepensar
ateu
ateu racional ateuracional
livre pensar   livre pensador   livre pensadores

Sou um ateu racional e um livre pensador, ou melhor, eu sou um ateu que tenta ser (que se compromete a ser) racional e livre pensador

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Livre arbítrio

O que somos?

O sábio é um egoísta que deu certo

Olhar-se e perceber-se