Recomeçar

Talvez, nem a própria eternidade, seja realmente eterna, ou pelo menos não o seja, exatamente no que hoje ela é ou possa agora ser. Pessoalmente sinto-me tentado a interpretá-la, no que me seja possível limitadamente compreende-la, como algo eternamente mutável, transformável e fluídico. A eternidade material, tendo como referência a dualidade matéria-energia como a conhecemos, me é mais palatável de imagina-la não eterna, tudo decai, na forma como encaro a realidade. A eternidade temporal, seja lá isso o que for, pode ser na verdade uma sucessão de contínuos novos estados, que se metamorfoseando, transitam de um estado de fase para outro. Talvez a eternidade seja prolixa em seus sucessivos estados momentâneos, onde o natural, continuando a ser natural, sem jamais deixar de ser uma realidade natural, se perca em estados físicos transmutados de si mesmo. Desta forma até a eternidade seria um ciclo de infinitos recomeços.

Se a própria natureza se reveste naturalmente de recomeços, porque nossa existência haveria de ser diferente? O recomeço em uma vida há de ser algo naturalmente pleno em si mesmo. Recomeçar o que foi interrompido, desde que social e humanamente digno, deve ser louvado e mais ainda, reforçado. Mas é importante reforçar que recomeçar não é somente um estado de ação transitivo, onde recomeçamos o que por alguma forma foi interrompido. O mais profundo no recomeçar, está em seu sentido intransitivo, qual seja, o de produzir-se novamente, o de começar a ser, o de construir-se de novo, o de buscar fazer-se pleno de si mesmo. 

Ter receio de recomeçar? Porque? Recomeçar é sempre desbravar novos mares, navegar em desconhecidos territórios do porvir. Isso naturalmente nos leva a algum receio. Cabe-nos aproveitar o poeta e repetir, navegar é preciso, e acrescento eu, recomeçar é natural, é humano, é necessário. Ter vergonha de recomeçar? Que nada! Recomeçar não é assumir-se culpado por insucesso algum, a vida social é complexa demais para uma abordagem dual tão pequena,  simplória e irreal, a de que somos totalmente responsáveis pelo nosso sucesso ou insucesso, não obstante termos muitas vezes alguma participação nesta responsabilidade, a complexidade natural que permeia a realidade imanente que nos cerca, não nos permite simplesmente termos controle total sobre o timão de nossa jornada. Mas, mesmo que fossemos os responsáveis diretos por alguma situação de insucesso, recomeçar é pleno de vida e de vontade. Recomeçar é mais do que simplesmente por em movimento a roda do nosso viver, é criar, é recriar-se, é transformar um estado presente que se vai, por um novo estado presente que ousa sempre chegar, que ainda não é, mas que tão logo seja, já mais não é, posto que já é passado.

Recomeçar é humano, é necessário e é um estado de ser de quem, no mínimo, sempre busca uma transformação, de si e do social.  

Arlindo Alberto P Tavares

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