Mudanças

Mudar seria necessário ou não? É possível se adaptar sem mudanças, ou se adaptar já é o exercício, em algum nível, de mudança? Acho no mínimo ingênuo pensar que tudo é fixo, que nada muda. A realidade é por si só dinâmica, e mutável é a percepção que dela subjetivamente alçamos a consciência. Tanto o mapeamento da imagem mental quanto nosso estado emocional são diferentes momento a momento. De novo, creio ser ingênuo imaginar que nossas emoções e sentimentos, nosso estado de ser a cada instante não afete direta ou indiretamente nossa leitura subjetiva da realidade. O ciclo, em minha percepção, é de recursividade continuada, a realidade interfere no como estou e mesmo no como sou, e em contrapartida, o como estou e sou, interfere continuamente no como interpreto subjetivamente a realidade. Desta forma entendo que mudar é um fato, natural e contínuo, mas a questão permanece, posso ou preciso mudar, com algum grau de consciência? Sim, minha resposta é que sim, mais do que posso, é necessário que aceitemos e embarquemos em mudanças. Alguns de nós preferem não pensar muito neste assunto.

Mudar é necessário, e o faremos, muitas vezes de forma totalmente inconsciente, ou com pequena margem de interface consciente, algumas vezes sequer notaremos que mudamos ou que estamos mudando, pois que a mudança ocorre no próprio cérebro que nos vê como somos. A imagem que construímos de nós reflete o circuito neural do cérebro, em cada instante, e é deste mesmo cérebro que emerge a consciência do que acreditamos ser ou estar sendo. A memória, que seria o elo de ligação consciente com o que já fomos, não é em si um circuito confiável, em nada atuando como uma imagem fotográfica ou de vídeo gravado sob uma mídia qualquer, ela é sempre construída a cada momento, e como nossas ligações neurais estão constantemente sofrendo alterações, ou nossos próprios neurônios “morrem” ao longo do tempo, alem de eventos outros como químicos, eletromagnéticos, doenças, acidentes, e assim ,nossas lembranças sofrem, elas mesmas mudanças.

Mudar é um fato necessário. E algumas mudanças devem ocorrer sob alguma gerência mental consciente. Muitas são as vezes em que percebemos que é necessário mudarmos, e devemos encarar de frente esta empreitada. O ano novo não é o único momento de “planejarmos” nossas mudanças. Mudar é uma realidade e uma necessidade, e deve ser um estado de ser e de estar. Mudar não é uma questão de decisão, ou pelo menos não unicamente de decisão, é um comportamento, um comprometimento, é um desafio constante, é um movimento pessoal e, por favor, não é algo necessariamente binário, ou bem fazemos a mudança completa que desejamos, ou permanecemos os mesmos. Mudar é muito mais um processo do que um estado de momento, é algo contínuo no espaço tempo mental que nos faz ser quem somos. O importante é a responsabilidade, o alcance, o compromisso, a vontade, o empenho, a conscientização, seja lá exatamente o que possa ser “uma conscientização”, com que encaramos as mudanças. Somos responsáveis direta e indiretamente pelo que fazemos e pelo que não fazemos, quando o podíamos ter feito, somos responsáveis tanto pela ação quanto pela omissão. Quantas vezes fizemos planos de mudança pessoal, e muitos deles não foram para frente. Mudar não depende só de planos. É ilusão pensar que basta fazer planos, construir uma espécie de lista seqüencial, ou não, do que devemos e até mesmo do como podemos mudar, mudar muitas vezes dá trabalho, pode até gerar alguma dor mental, mas mudar é necessário, e não precisamos esperar o ano novo, o aniversário, ou mesmo a próxima segunda feira para abraçarmos com coragem e verdade a necessidade de mudarmos.

Nosso circuito e funcionalidade cerebral muda o tempo todo, desta forma nossa mente também muda, e assim mudamos nós, não depende de crermos ou não nas mudanças, elas estão acontecendo. Que tal assim, de forma responsável, sermos pelo menos co-autores desta mudança, já que outras estarão ocorrendo a revelia de nossa vontade.

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